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domingo, 1 de março de 2015

VIOLÊNCIA E HUMANIDADE

HUMANO: DEMASIADO VIOLENTO


Adentramos o século 21 sem ter dado cabo de um problema seríssimo que assola a humanidade desde o seu alvorecer: a violência humana. A Filosofia e a Religião já se debruçaram demasiadamente sobre essa problemática, mas foram até agora incapazes de se aprofundar nas causas da “bestialização humana”, de modo a evitar ou, pelo menos, contornar seus efeitos devastadores. Nessa perspectiva, venho através deste artigo levantar alguns pontos de vista, dentre os quais aquele que encontrei num texto recente, intitulado “A violência como condição humana”, de autoria de Alexandre Marques Cabral, publicado na revista Filosofia – Ciência & Vida Nº54 (Ed. Escala), que servirá de ponto de partida para outras considerações sobre a temática.

Como fica claro no próprio título, o autor desnudará sua convicção de que a violência é inerente à condição humana e tentará, com maestria, provar isso ontologicamente[1]. Sua proposição inicial confirma isso: “A história da humanidade e a história da violência parecem copertencerem por essência, não acidentalmente”. Linhas abaixo, ele avança com seus argumentos: “sofrer e fazer sofrer, portanto, parece ser o combustível dos povos. Isto significa dizer que as culturas em geral sempre elevaram o ideal sadomasoquista[2] à dignidade do altar”. O autor nega que a desvalorização dos valores supremos, tidos como absolutos (como a “Morte de Deus”, defendida por Nietzsche), sejam causa ou consequência da violência no homem. Também nega que seja um problema moral: “Não é a força ou o enfraquecimento axiológicos[3] que determinam a presença ou a ausência da violência”, e conclui, em seguida, que “a violência deve ser abordada ontologicamente”.

Cabral vai à Gênesis bíblica[4] para fundamentar seu pensamento: “Onde há ser humano há condições de violência. Não foi à toa que narrativa mítica da Bíblia judaico-cristã projetou as raízes da violência na relação entre os dois primeiros irmãos da humanidade: Caim e Abel. Isto sinaliza que, na raiz da humanidade, a violência está presente, tornando-se normativa[5] em toda história posterior”. Diz ainda ele: “Sair da animalidade para chegar e permanecer na racionalidade é a intenção ascética[6] que atravessa toda a luta ocidental contra a violência. [...] Não é à toa que a figura ocidental religiosa que personifica a violência e a degradação humana é a besta[7].

O autor lança mão dos existencialistas[8] de primeira grandeza, Kierkegaard, Heidegger e Sartre, dizendo que estes defenderam que o homem é “marcado por uma negatividade fundamental”, e argumenta: “Não sendo em sintonia com o modo próprio de ser da existência, o homem pode não suportar as alteridades[9] e não se abrir e não se abrir para novos modos de ser a partir da instauração de novas relações. Impotente para o jogo racional e conflitivo da existência, a violência passa a ser um dispositivo necessário para a manutenção de um tipo vital cristalizado, que não consegue abrir-se a novas alteridades e mudar a si mesmo. Por isso, a violência é sempre um recurso existencial que deflagra, sobretudo, a impotência daquele que dela faz uso”. Daí, ele conclui: “Frente à violência não s pode com uma fórmula mágica, mas devem-se criar múltiplas estratégias de resistência à sempre presente possibilidade de disseminação de mecanismos de reificação[10] da existência e do seu pressuposto vital, a saber, o tipo existencial impotente”.

Como podemos ver, o professor Marques Cabral não tem dúvidas de que dificilmente algum de nós terá forças suficientes para erradicar de si a violência, o que nos faz concluir que toda a humanidade, neste jogo existencial, está em xeque.

Porém, como disse no início deste artigo, esse primeiro texto servirá somente de abertura para uma discussão maior, levando em conta outros dois textos: um do professor de Ética Aplicada do programa de pós-graduação em Filosofia da Universidade Gama Filho, Delmo Mattos, cujo título é “Hobbes versus Aristóteles: a socialização como problema”, publicado na edição 54 da revista Filosofia – Ciência & Vida (Ed. Escala); e outro, de minha autoria, “Demasiado Humano?”, publicado na edição 29 da revista Filosofia – Conhecimento Prático (também da Ed. Escala).


  No primeiro desses textos, Mattos, apesar de admitir que a violência caminha junto com a humanidade, parece não seguir na mesma linha de Marques Cabral, como podemos ver nestas linhas: “Desde os primórdios da humanidade, a vida em sociedade é marcada por contradições e conflitos. Na atualidade, este fato está cada vez mais visível, na medida em que assistimos, atônitos, ao alto grau de violência nos grandes centros urbanos. A todo instante, somos conduzidos a crer que a violência faz parte da condição humana, ou seja, que somos naturalmente seres violentos. Com efeito, acreditar nesta premissa torna-se argumentativamente onerosa, pois, como se sabe, nada pode justificar de forma plausível que a violência nos é verdadeiramente inerente”.

Fazendo de Hobbes[11] e Aristóteles[12] porta-vozes de suas reflexões, Mattos vai analisar o problema da violência humana como sendo uma questão contornável pela via da racionalidade e, consequentemente, pela nossa capacidade enquanto seres sociais e políticos, embora todos nós saibamos que, até a atualidade, tudo isso não foi suficiente. Mesmo assim, o autor diz: “Thomas Hobbes [...] parte dos primeiros indícios de movimento do homem, em vistas ao conhecimento das paixões e outras faculdades humanas, com o objetivo maior de demonstrar, em um segundo momento, como estas paixões e faculdades determinam o comportamento inevitável do homem em relação aos outros homens, quando removida a obrigação do cumprimento da lei e dos contratos, o estado de natureza”. “[...] Hobbes caracterizará a natureza do “homem natural” no plano de interação a partir de dois predicados fundamentais: (a) o primeiro, decorrente da igualdade de condições, é a cobiça natural dos homens proveniente das suas paixões; (b) o segundo, é o desejo que cada homem possui de evitar a morte como o maior dos males da natureza”.

É fácil supor que, como homem do século 17, evidentemente, Hobbes teve a oportunidade de conhecer história de várias sociedades, de vários Estados, e assim pôde tecer pensamentos mais sofisticados que os de Aristóteles, que só teve para si os anos áureos da Grécia Antiga. Mesmo assim, é louvável que o autor, contrapondo esses filósofos tão cronologicamente afastados entre si, busque respostas em favor da sociabilidade humana.

Citando Aristóteles, diz Mattos: “Em sua obra Política, [...] o filósofo grego afirma ser a pólis (a cidade-estado grega) resultante de uma série de associações naturais, ou seja, como resultado de um processo natural de desenvolvimento, “tão natural como a união de homem e da mulher – com fim de preservar a espécie”. Uma associação humana qualquer é, segundo o filósofo em questão, um todo composto por pelo menos mais de um indivíduo, que tem como fim um determinado bem”.

Como era de se esperar, Delmo Mattos irá concluir, para a infelicidade de todos nós, humanos, o seguinte: “Diante dos argumentos de Hobbes, no qual ele contrasta a sociabilidade humana da sociabilidade animal, podemos inferir, por sua demonstração, que a sociabilidade humana é bastante diferente da sociabilidade natural aristotélica, pois mesmo os desvios do comportamento animal, este não deixam de perseguir um fim comum, enquanto que a conduta humana tende naturalmente para a desagregação. Por outro lado, os desvios dos homens, ao contrário dos animais, adquirem rapidamente o caráter de lutas e querelas que acabam por determinar em uma “guerra de todos contra todos”, colocando, portanto, em questão a própria sociabilidade humana”.

Chegando, por fim, ao meu próprio texto, devo logo salientar que o mesmo não foi escrito apenas com o intuito de investigar esse “mal no homem” – a violência de uns contra os outros –, mas também num sentimento de indignação e revolta em perceber que somos “impotentes” diante da animalidade que nos habita. No entanto, também devo acrescentar, nego-me a aceitar que somos maus por natureza, num sentido ontológico. Creio somente que bem e mal fazem parte de nossa natureza existencial, não de nossa essência. Para mim, o desequilíbrio entre essas duas potências no homem é que determina “um bem maior” ou “um mal maior” no mundo, como um todo.

Pois muito bem! Como são minhas próprias palavras (ou, pelo menos, emprestadas daqueles que serviram às minhas considerações), não farei ressalvas ou considerações neste último texto que concluirá nossa investigação, por ora. Transcreverei trechos interessantes dele, que me parecem úteis à nossa proposta aqui. E é assim que o começo: “Ao longo do tempo, os conflitos entre povos e nações mudaram seus motivos, porém mantiveram seu traço de absurdo. Se somos seres dotados de razão e interessados em encontrar a felicidade, por que, então, vivemos em guerra?”.

“Desde os tempos mais remotos, o homem vem tentando viver em bando, ou em sociedade, buscando assim sua proteção e seu bem-estar. Nessa trajetória, ele impôs regras a si mesmo, a fim de manter um convívio pacífico com seus semelhantes e tentar preservar sua vida e seus bens materiais e afetivos. No entanto, muitas foram (e ainda são) as dificuldades encontradas na realização de seu intento e, infelizmente, as ameaças a seu afã existencial, ao que parece, encontram- se nele mesmo. Entramos no século 21 incertos quanto à nossa capacidade de fazer desaparecer do nosso mundo a máxima que paira sobre a humanidade: bellum omnium contra omnes[13].

Diz Aristóteles: “O homem que deseja viver bem deve viver segundo a razão”, e que “O bem supremo realizado pelo homem (a felicidade) consiste em aperfeiçoar- se enquanto homem, na atividade que o diferencia de todas as outras criaturas – a racionalidade”. Lição aprendida? Evidentemente, não!”.

Diante de tantas dificuldades e, assim mesmo, buscando ainda uma saída para a nossa própria violência, fiquemos com esta indagação inquisidora de Nietzsche[14]: "Todos os seres até hoje criaram alguma coisa superior a si mesmos; e vós quereis ser o refluxo deste grande fluxo e até mesmo retroceder às bestas, em vez de superar o homem?".




[1] Ontologia é a parte da metafísica que trata da natureza, realidade e existência dos entes. A ontologia trata do ser enquanto ser, isto é, do ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres.
[2] Termo nascido da união de outras duas palavras: sadismo e masoquismo. O sadismo é a tendência em uma pessoa de prazer impondo o sofrimento físico e moral a outra pessoa. Já o masoquismo é a tendência oposta ao sadismo: a pessoa sente prazer em receber o sofrimento físico e moral de outra pessoa.
[3] Axiológico é tudo aquilo que se refere a um conceito de valor, isto é, os valores predominantes em uma determinada sociedade.
[4] Faz parte do Pentateuco e da Torá, os cinco primeiros livros bíblicos. Narra uma visão mitológica, desde a criação do mundo, na perspectiva hebraica, genealogias dos Patriarcas bíblicos, até à fixação deste povo no Egito, através da história de José.
[5] Normativo é aquilo que se entende como “regra”, ou “norma”, imposta inapelavelmente a todo ser ou coisa, dentro de um determinado contexto ou situação.
[6] O ascetismo é uma filosofia de vida na qual são refreados os prazeres mundanos, onde se propõem a austeridade. Pessoas que praticam um estilo de vida austero definem suas práticas como virtuosas e perseguem o objetivo de adquirir uma grande espiritualidade.
[7] A Besta do Apocalipse, ou simplesmente Besta, é uma figura do livro do Apocalipse de João que, na Bíblia, é relacionada ao Anticristo.
[8] Existencialismo é uma escola filosófica dos séculos XIX e XX. O filósofo Søren Kierkegaard é considerado o pai do existencialismo. Ele sustentava a ideia de que o indivíduo é o único responsável em dar significado à sua vida e em vivê-la de maneira sincera e apaixonada.
[9] Alteridade é a concepção de que todo o homem social interage e interdepende do outro. Assim, como muitos antropólogos e cientistas sociais afirmam, a existência do "eu-individual" só é permitida mediante um contato com o outro.
[10]  Processo em que uma realidade social ou subjetiva de natureza dinâmica e criativa passa a apresentar determinadas características (fixidez, automatismo, passividade) de um objeto inorgânico, perdendo sua autonomia e autoconsciência.
[11] Thomas Hobbes (1588-1679), matemático, teórico político, e filósofo inglês, autor de “Leviatã” (1651) e “Do cidadão” (1651).
[12] Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.): filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande, é visto como um dos fundadores da filosofia ocidental.
[13]  Expressão que em latim significa "A guerra de todos contra todos". Foi citada por Thomas Hobbes em sua obra Leviatã, descrevendo é esta que é essa a situação da humanidade no estado natural (pré-social).
[14] Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), filólogofilósofocrítico culturalpoeta e compositor alemão do século XIX. Escreveu vários textos críticos sobre a religião, a moral, a cultura contemporânea, filosofia e ciência, exibindo uma predileção por metáforaironia e aforismo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

REFLEXÕES DO SÉCULO XXI (Parte III)

SE DEUS NÃO EXISTE, QUEM OU O QUE GOVERNA O MUNDO?


O termo “Deus” tem significados diversos e conotações as mais variadas: “Senhor”, “Criador”, “Pai”, são alguns dos sinônimos, enquanto “Ser Supremo” “Bem Supremo”, “Soberano do Universo”, também são expressões usadas para se referir a Ele. Em cada religião o termo “Deus” ganha um nome próprio, também pode mudar de forma e atributos. A palavra “Deus” se tornou tão forte entre nós que, quando emitida, gera nas pessoas algum tipo de reação emocional, a qual será mais forte ou mais fraca, agradável ou desagradável, conforme seja a identificação de cada pessoa com ela. Embora em cada religião a ideia “Deus” se modifique, o que não muda basicamente é a sua relação com o homem e este com Ele. Dito de maneira objetiva e clara, o que as religiões parecem dizer é que ‘Deus foi feito para o homem e o homem foi feito para Deus’, o que evidentemente não leva a lugar algum.

Até aqui, nesta série de reflexões propostas, temos analisado apenas a noção de Deus conforme apresentada pelas religiões, já que são elas que pretendem dar conta do que Ele seja. Mas o que espero fique claro é que, além das divergências entre elas, há ainda incongruências enormes dentro delas mesmas. Como, por exemplo, na vertente católica do cristianismo, a ideia “Deus” é apresentada como “o bom Pai” que tem moradas no Reino dos Céus para todos os seus filhos (como está escrito no Novo Testamento). Ora, essa perspectiva não dá lugar para Jeová, “O Deus Irado” que amava apenas o povo hebreu. A vertente evangélica, embora maciçamente atrelada ao nome Jesus Cristo, parece remeta a ideia “Deus” de volta à sua concepção no Velho Testamento, tendo, inclusive, seu “Povo Escolhido”, “O Povo de Deus”, “Os Eleitos”, o que não é corroborado nem um pouco pelas palavras do Cristo. Assim, vemos que o que há, na verdade, é uma adequação da ideia “Deus” aos interesses de cada doutrina, fazendo daquele que deveria representar “o Absoluto” um joguete, uma marionete, que é apresentado aqui ou ali conforme não o que é, mas o que querem que seja.

Já se foi o tempo em que não se podia questionar a existência desse “Deus das religiões” (embora a Idade Média, insisto, ainda não tenha acabado). Hoje, esse questionamento já não é restrito à Filosofia acadêmica, aos tratados filosóficos de grandes pensadores, já podem ser encontradas publicações em bancas de revistas que trazem o tema à baila. Citarei duas aqui. A renomada revista Planeta (Editora Três), na sua edição 471, de dezembro de 2011, trouxe, como matéria de capa, “Sem fé nem Deus”. O texto de Mariana Tavares apresenta números do crescente aumento daqueles que não professam nenhuma religião, dos agnósticos e dos ateus. A matéria chama a atenção para o fato de que “ateu” não é apenas aquele que “não crê em Deus”, ele também “crê que Deus não existe” (o que se aproxima mais do objetivo deste artigo). Além disso, a matéria apresenta nomes de várias personalidades que “não acreditavam em Deus, como Portinari e Sartre, assim como os nomes de grandes opositores das religiões e da existência de Deus, como o biólogo britânico Richard Dawkins e o filósofo norte-americano Daniel Dennett. Enfim, o texto de Mariana Tavares é elucidativo e contextualizado, pois evoca também questões socioculturais e políticas deste início de século 21.


A segunda revista que citarei é a “Psique – Ciência & Vida” (Ed. Escala), que em sua edição 97 trouxe estampada em sua capa “Fé Cega”. Nela, o texto “Quem precisa de religião?”, Marcelo da Luz (professor, conferencista e autor do livro “Onde a Religião termina?”) faz uma abordagem mais psicológica dessas questões da fé em Deus. Ali, o autor cita, por exemplo, Freud, que considerava o fenômeno religioso “uma neurose coletiva”. O texto tenta contrabalançar os prós e os contras da fé, mas parece enfático em lembrar que certos fatores psicológicos como o medo da morte, por exemplo, fazem as pessoas se deixarem “manipular consciencialmente” pelas religiões. Também diz que “pessoas inseguras quanto as próprias capacidades anseiam encontrar alguém que lhes aponte uma estrada e lhes diga o que fazer”. Claro: é bem aí que a muleta “Deus” passa a ser o totem das religiões e aquela velha imagem do “pastor guiando as ovelhas”, tão atrelada ao cristianismo, não deixa dúvidas do nível de dependência dos fieis. Parece-me pertinente também transcrever aqui dois momentos do pensamento do autor, bastante corroboradores do que tenho dito: “[...] a idéia da religião pacífica parece ser um mito, pois as religiões, historicamente, sempre fizeram apologia da tirania e da escravidão”. “Se o ser superior é mensageiro de verdadeiro amor e fraternidade, não seria mais lógico que estimulasse os seres humanos à autonomia moral da consciência, no lugar de exigir adoração e louvores para si mesmo?”.

Acreditando que neste ponto todos já tenham percebido (embora não necessariamente aceitado) ao onde pretendo chegar, pois a fé se mostra renitentemente opositora da razão, devemos partir para a análise do que afinal sustenta, equilibra e governa todo o Universo, pois, como vimos, aquilo que até aqui foi chamado genericamente de “Deus” pelas religiões jamais poderia ser o promotor de tanta harmonia, sendo Ele próprio um ‘desequilibrado’, que ora tem um humor, ora tem outro; ora é de um jeito, ora é de outro.

Segundo nossa maneira lógica de perceber o Universo, a Natureza, a Existência, já concluímos, há algum tempo, que tudo isso é um “organismo auto-regulado”, auto-suficiente, tendo “leis” extremamente eficientes em mantê-lo e preservá-lo. Todas as espécies, aves, animais, plantas, assim como rios, montanhas, vales e florestas, enfim, tudo pode sucumbir, ser extinto, ser substituído, ser modificado etc, sempre parecendo que há ali um plano de “manutenção” de algo maior. Os primeiros filósofos se debruçaram sobre essa preocupação – qual a origem do Universo? qual a sua natureza? A isso deram o nome de cosmogonia (a gênese do cosmo); em seguida, empreenderam meditações sobre o Universo e suas possíveis leis, dando a isso o nome de cosmologia (o estudo do cosmo). Ali não havia qualquer preocupação ou qualquer esperança de se chegar a um “Deus” criador e mantenedor do mundo. A ideia “Deus”, no sentido religioso que tratamos até agora, era totalmente desconhecida para eles. É impressionante o que aqueles homens descobriram, embora carecendo totalmente de instrumentos tecnológicos e outros recursos, que somente surgiriam muitos séculos depois.

 Paulo de Tarso, o verdadeiro fundador da Igreja cristã, disse em uma de suas epístolas que “A razão do homem é, para Deus, loucura!” (I Coríntios: 3, 19). Mas quem deu a “Razão” para o homem, o Diabo? Se assim fosse, não haveria negar que o Diabo é realmente o grande rival de Deus, e que ambos são forças antagônicas poderosíssimas. Aí, nos veríamos diante de mais uma incongruência religiosa: a Religião nos diz que “Deus” é “onipotente”, o que significa dizer, lembremos, que só Ele detém todo o poder. E agora? Como vemos, se insistirmos em admitir a existência desse “Deus” das religiões, teremos ainda mais um problema: o Diabo. Portanto, como tenho proposto, deixemos “Deus” na sua santa inexistência, porque problemas nós já temos demais sem Ele.

Se, durante séculos, nos convencemos de que somos seres especiais, já é mais do que hora de, também, repensarmos essa ideia. Se somos racionais e livres, como muitos creem, já é tempo de compreender que essas qualidades podem não significar exatamente “vantagens” ou “privilégios”, haja vista o mau uso que temos feito dessa nossa razão e liberdade. Saímos da Idade Média, do obscurantismo, para o otimismo iluminista do início da Era Moderna. Mas esse otimismo com o futuro do homem, ao que parece, ‘morreu na praia’, assim que chegou ao século 19. E, para piorar as coisas, presenteamos a primeira metade do século 20 com as duas Grandes Guerras – o animal racional tinha aprendido a matar os da sua mesma espécie com requintes de crueldade e com armas cada vez mais poderosas; enquanto o animal irracional, aquele sem privilégios, continuava predador apenas das outras espécies que eram necessárias à sua alimentação. Quanta inveja a nossa, não?! Àquela altura, a tábua com os dez mandamentos divinos já podia ser usada para qualquer outra coisa, menos para ser o “Código das Leis de Deus”. Mais uma vez, vemos como os alicerces e as colunas dos templos religiosos, suas ideias, ideais e dogmas, são perigosamente abalados, sobrando apenas uma edificação em ruínas.

No século 17, portanto, logo depois da Idade Média, vamos ter notícia de um filósofo, chamado Baruch de Spinoza (1632-1677). Spinoza, como ficaria conhecido, surgiu com ideias inovadoras sobre o tema destas nossas reflexões. Apesar de ele ainda usar o termo “Deus”, sua noção sobre Ele era bastante diferente das dos demais filósofos de sua época e anteriores a ele, e praticamente oposta à das religiões – o que, evidentemente, lhe valeu uma tenaz perseguição religiosa, que culminou na excomunhão do filósofo, promulgada pela comunidade judaica de Amsterdam, em 27 de julho de 1656, conforme o trecho que se lê abaixo:

“Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Spinoza... Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai e maldito seja quando regressa... Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste favor algum, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele”.

Como se pode ver, anjos e santos têm em seus corações a mesma malignidade de qualquer homem mesquinho e a mesma ira dos rancorosos e ofendidos. Levando em conta que tal texto realmente fosse a decisão de seres celestiais, não me restaria dúvida de que eu preferiria a companhia de assassinos e ladrões a compartilhar com eles qualquer céu. Mas saiba-se que tal ira e rancor habitam o âmago de todas essas religiões que se dizem promotoras da paz e da fé, simplesmente porque são invencionices de homens; e, pior, dos homens mais baixos e obtusos – os sacerdotes. A escória que quer manter-se sempre no poder, escondendo-se sob o manto da ‘falsa humildade’.

Como disse linhas acima, embora Spinoza use o termo “Deus”, veremos que o “Deus-criador” do qual ele fala nada tem a ver com o da teologia cristã. Na sentença a seguir, o filósofo explica a existência de Deus: “[...] os homens confundem inteiramente a natureza divina com a humana. [...] Deus está em toda parte não como um espectador num teatro, isto é, exterior ao espetáculo, mas está em toda parte como força, que põe e conserva as coisas, força interior às coisas postas por ela.” Neste ponto, é bom lembrar o objetivo de nossa “reflexão”: não é o de devolver a existência ao “Deus das religiões”, e, sim, descobrir o que ou quem mantém o Universo. O ‘Deus de Spinoza’ se confunde com o que chamamos de “Natureza”, só que numa perspectiva existencial imanente, e não ecológica, como se costuma falar dela. Deus, nessa concepção, seria a Natureza não só que cria todos os seres, mas também a que está neles, os atualiza e os mantém. Spinoza acrescenta: “É claro que o vulgo não conhece absolutamente a natureza divina e lhe atribui uma vontade semelhante à do homem que, em nós, é concebida como distinta do intelecto. Creio que se deve ver nisso a base da superstição e de inúmeros crimes”. Sem dúvida!

Creio pertinente acrescentar ainda três noções maduras do pensamento do filósofo, a saber: “o bom e o mau”, “essência e existência” e “o que é a vida nos seres”. Para tanto, resumirei o pensamento de Spinoza, buscando não prejudicar (e, sim, facilitar) sua compreensão. Pois, muito bem! O filósofo diz que considerar uma coisa como boa ou má é uma questão puramente humana, pois o homem pensa tudo em relação ao bem ou ao mal que lhe causa; por sua vez, Deus desconhece esse bem ou mal, pois, sendo Ele perfeito, vê tudo o que acontece (portanto, também o que nos acontece) como “perfeito”, e somente em nossa mente, consideramos algo bom ou mau. Inferimos daí que “o Deus-bondade” dos religiosos é um absurdo, uma impossibilidade, visto que na suposta mente de Deus, “bom” e “mau” não existem, quando muito, “tudo seria apenas bom”, então como ele poderia vir ao auxílio do homem, quando solicitado em prece, para lhe proporcionar um bem, se, em última instância, Ele só fez e faz “o bem”?

 A segunda noção a considerar é aquela que o filósofo fala da “essência e existência de Deus”. Diz ele que, “em Deus, essência e existência são a mesma coisa”, ou seja, a verdade é que “Deus é”, enquanto nós, seres humanos, dizemos “Deus existe”. Volto a lembrar que o que está sendo dito neste parágrafo de nenhuma forma entra em contradição com o que já foi dito anteriormente, isto é, que “Deus não existe”. Primeiramente porque o que está sendo alvo de desconstrução nestas “Reflexões” é a ideia “Deus” das religiões, e agora passamos a considerar (como posto no título deste capítulo) o que ou quem ordena, atualiza e mantém o Universo, a despeito de Spinoza ainda chamar “isso” de “Deus”.

A terceira e última noção a ser considerada será dita nas próprias palavras do filósofo de Amsterdam, como segue: “Entendemos por vida a força pela qual as coisas perseveram em seu ser” (o grifo é dele). Em outras palavras: há uma força que produz o que chamamos “o ser vivente”, ou “o ser vivo”. O que há de importante nisso que remete à temática da existência ou não de Deus? Esclareço! Se estiverem me acompanhando (ou melhor, acompanhando o pensamento de Spinoza), lembrarão que aqui foi dito que o filósofo, em seu pensamento, faz com que “Deus” e “Natureza” sejam uma e a mesma coisa. Assim, se considerarmos que a “Natureza” tem seus próprios objetivos (criação, manutenção e preservação), dentre as suas “preocupações”, digamos assim, também está “o homem”, mas não que ele seja “o queridinho dela”, o que não nos dará margem para crermos que “rogando seus favores” (como se faz ao Deus e deuses das religiões) ela virá ao nosso auxílio, como “um fiel menino de recados”. Portanto, estamos sós com os nossos problemas, embora a “Natureza” também cuide de nós, dentro do que ela se propôs desde toda a eternidade, amém!



Para concluir este capítulo, embora sem a pretensão de termos encerrado a temática, tal é a sua profundidade, direi, como tenho dito reiteradamente, que o que pretendi com esses três primeiros capítulos da série “Reflexões” foi incentivar aqueles que realmente desejam se libertar das amarras da Idade Média e dos horrores e absurdos das religiões a encontrarem por si mesmos, sem o auxílio de intermediários inescrupulosos e interesseiros, os mercenários da fé, qual seria essa “Força” que, sem contradito, é a que manifestou o Universo e deu vida a todos os seres, que os equilibra com suas leis inexoráveis e que tudo preserva, ainda que impingindo a todas as coisas mutações, como a morte, por exemplo. Se compreendemos que essa “Força” tem o poder de criar, manter e preservar tudo o que “é”, pois tudo se resume nela mesma, e, ainda assim, ao mesmo tempo, compreendemos que, por sermos mortais, somos descartáveis, como o mais insignificante lixo humano, e desaparecemos para sempre, então nada ficou entendido de tudo o que foi exposto até aqui. De minha parte, serei sempre fiel não à mera ideia, mas, sim, à convicção, respaldada no sério escrutínio da Razão, de que o fato de sermos mortais, como corpos, não nos tira o direito supremo, outorgado pela própria Natureza, de sermos “eternos”, posto que nossa “essência” participa não da existência efêmera e fugaz, mas da Eternidade.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

REFLEXÕES DO SÉCULO XXI (Parte II)

COMO VIVER, SE DEUS NÃO EXISTE?


Durante muitos séculos, o homem vem vivendo sob a perspectiva de que “Deus existe”. Essa noção, evidentemente, moldou por todo esse tempo seu comportamento, determinou suas atitudes, gerou linhas de pensamento atreladas a esse viés. Pensamentos que, provavelmente, jamais teríamos tido, caso pensássemos ao contrário – “Não existe Deus!”. Homens comuns e até pensadores se viram obrigados a levar em consideração essa ideia massificada pelas multidões de desvalidos e pelas religiões institucionais. Por muito tempo, pensar diferente disso era o mesmo que assinar sua condição de “renegado social”; ser considerado um ateu era quase uma pena de morte. A Igreja decretava a sentença e, quando não cumpria ele própria a execução, deixava naturalmente a cargo da multidão enfurecida (lembrem-se: a Idade Média ainda não acabou!). Não admitir a existência de Deus, ou falar algo que sugerisse isso, era o mesmo que trazer a inscrição 666 na testa – o número da Besta, do Anticristo, segundo a Bíblia. Deus tinha que existir, aceitássemos isso ou não!

Os antigos egípcios tiveram seus deuses e deusas; os gregos também tiveram seus deuses do Olimpo. Se tivéssemos vivido nesses lugares, naquela época, sem sombra de dúvida, teríamos achado normal adorar Osíris ou Ísis, ou então Zeus ou Poseidon. Povos imemoriais também tiveram os seus “Senhores Invisíveis”. Então, poderíamos nos perguntar de onde vem essa propensão a acreditar em “Deus” ou “deuses”? Como homem do século 21, e sem o peso da fé, ou sem o punho massacrante da Igreja, ouso dizer que, não sabendo quase nada sobre nós, ficou mais fácil inventar “um outro”, sobre o qual “sabemos tudo” – porque nós o inventamos. Mas, perdão! Esse pensamento não é meu. Ele é uma versão menos poética e mais direta de um outro, escrito pelo menos um século e meio atrás, que pertence ao filósofo Nietzsche. Em seu “Assim falava Zaratustra”, encontra-se a matriz do que acabo de dizer: “Ainda não vos havíeis procurado: então me encontrastes. Assim fazem todos os crentes; por isso importa tão pouco toda crença”. É por isso que os crentes (religiosos de toda a espécie) são muito práticos e categóricos em emitir sentenças como estas: “Deus não gosta disso”; “Deus não aprova esse tipo de ação”, “Deus quer que nós façamos tal e tal coisa”. Somente aquele que “inventou Deus” teria tal capacidade de saber o que se passa na mente d’Ele, quais são seus gostos e caprichos. Em resumo: tudo demasiado humano!

Depois de inventar o seu “Deus”, cada povo tratava de confeccionar seus cultos e rituais. São as formas de agradar esse “Deus” ou aplacar sua cólera, conseguindo em seguida seus favores, pelo menos era o que se pensava. Dito de outra forma, inventamos um ser apenas para fazer de nós mesmos "escravos voluntários" d’Ele. Estabelecemos os horários, os dias e os locais de adoração desse ser. E, depois de realizarmos todo esse ritual inventado, sentimos naturalmente algo no coração que nos diz que Ele aceitou as oferendas, as palavras de bajulação e a nossa disposição de deixarmos de lado nossas próprias vidas por alguns instantes para brincar com o “Homem Invisível” que nós mesmos criamos. Esses rituais foram passados de geração para geração, sempre acrescentando algum detalhe que o sofisticasse, como uma imagem de ouro, uma vestimenta cheia de símbolos para os sacerdotes e outra para os devotos, e um livro ou mais onde ficassem registrados os pontos marcantes dos louvores e das falas dos homens mais elevados na hierarquia daquele credo. Com isso, amalgamava-se ali o que ficou conhecido como “tradição”, a qual se tornaria a guardiã direta dos dogmas – preceitos que jamais podem ser mudados ou questionados. As religiões institucionais surgiram para dar garantia a tudo isso e providenciar para o povo, que se agrega a ela (os fieis), a noção de que estão irmanados, congregados em torno de algo que é bem maior que todos juntos, a Igreja – e no final das contas, Deus.


Religião, da raiz latina “religio”, quer significar que, seguindo tais rituais de certo credo, a pessoa se “religa” ao seu criador (Deus). Ou seja, sem essa atitude religiosa, o homem estaria afastado do seu criador e, por conseguinte, toda sua vida seria em vão. Quando pensamos nos atributos conferidos ao Deus cristão, em particular o de ser Ele “onipresente”, para nós, que usamos o raciocínio para entender o que precisa ser entendido, surge uma clara incongruência: como posso ter me desligado daquele que não só está em toda parte ao meu redor, como também me preenche em todos os sentidos? O cristianismo tem as melhores artimanhas para driblar os mecanismos da lógica, e quando todos as anteriores falham em dar explicação, ele se sai com a mais infalível de todas: esse é o mistério de Deus. E aí todo o debate desmorona, feito um castelo de areia tomado pelas águas do mar.

A reconhecida Igreja Católica, de linhagem cristã, estendeu seu domínio por todo o Ocidente, embora também se admita por aqui outras religiões e cultos a outros deuses. Se por um lado há o discurso nas várias religiões tentando convencer os fieis de diferentes credos de que “Deus é um só!”, e sendo um e o mesmo, todas as religiões são co-irmãs, há também um forte movimento na direção contrária, que não abre mão de ter o monopólio do “Deus verdadeiro”. Esse esforço pela supremacia não é velado, muito pelo contrário, ele é explícito e violento, e tem tentáculos em diversos setores da sociedade, nas nações, mais precisamente. Quando a religião está ligada diretamente ao Estado, os males para a população são incalculáveis. Um discurso feito pelo papa sobre qualquer assunto sociopolítico tem grande influência e repercussão no mundo. Da mesma forma, um pronunciamento do Dalai Lama, ou qualquer outro líder religioso, mesmo aqueles que só têm projeção graças à mídia, sedenta de manchetes polêmicas – os famosos “gurus da moda”.


As igrejas evangélicas usam o nome do seu garoto-propaganda, Jesus Cristo, para espalharem templos por toda parte. Templos cada vez mais suntuosos. A megalomania religiosa não tem limites e pode ser lida em letras garrafais nas fachadas dessas igrejas: Universal, Mundial etc. Não há o que negar: Deus é acima de tudo “uma máquina de fazer dinheiro” – em todas as línguas e moedas. Portanto, caso se comprovasse sua inexistência, o cataclismo econômico se abateria sobre os que ganharam, e ainda ganham, muito dinheiro à sua custa. Milhões de pessoas estariam falidas, negócios bilionários simplesmente iriam à bancarrota. O próprio Vaticano, que enriqueceu graças ao ouro das novas terras, descobertas ou conquistadas pelas nações católicas durante o período do colonialismo não teria mais como manter seu patrimônio nem como pagar os altos salários a seus padres, bispos, arcebispos, cardeais etc. Pois é! Vendo por esse prisma, podemos entender muito bem por que Deus tem que continuar existindo. Dentro da conjuntura a que se chegou, o mundo, ao que parece, não subsistiria sem Ele.

Mas será que não há mesmo um modo de se viver e até ser feliz sem Deus? Será que, despertando desse "sono dogmático”, não veríamos uma verdadeira luz, que não fosse apenas um subterfúgio para a nossa covardia, para nossa fraqueza e nosso medo? Será que, a partir daí, não encontraríamos uma nova perspectiva? Que grande calamidade ou mal poderia sobrevir a nós por simplesmente, compreendermos, aceitarmos, descobrirmos que “Deus não existe”?

Muitos são os que cometem a tolice de dizer que sem Deus os homens abandonariam a moralidade, pois nossos mais elevados valores morais cairiam por terra e a selvageria tomaria conta da humanidade. Quanto absurdo! Será que esses tolos, que dizem tal asneira, não conseguem perceber que em todos os tempos e em qualquer lugar, mesmo com milhões de seres humanos acreditando em Deus, a humanidade não se tornou melhor do que era de maneira expressiva, significativa? Nem mesmo as pessoas consideradas as mais religiosas são “boas”, como nos levam a pensar – elas são capazes dos mesmos atos cruéis de qualquer outro homem comum, pois podem trazer consigo as mesmas tendências, os mesmos apetites animalescos. De quantos padres pedófilos já se tem notícia? Quantos pastores abusaram de jovens ou extorquiram dinheiro de incautos? Quantos são os gurus prestidigitadores da fé? Quantos homens-bomba seguem matando inocentes em nome de Deus? Deus, portanto, não serve de inspiração só para os grandes homens santos, como São Francisco de Assis, Gandhi ou Madre Teresa de Calcutá. Ele também é a força motriz das várias espécies de assassinos e criminosos, de toda e qualquer religião.



Talvez decretar a morte ou a inexistência de Deus não seja a solução dos nossos problemas existenciais, mas mantê-Lo vivo não é, sim, erro danoso para nós. Tentar matá-Lo seria já em si um grande problema – como se mata um “fantasma”? Melhor seria negligenciá-Lo. Deixá-Lo tão esquecido no seu céu de algodão-doce que o próprio tempo daria cabo dEle. O tempo faria por nós o que a nossa covardia, nossa fraqueza e nosso temor juntos foram incapazes de fazer até hoje. Aí, nós, como filhos órfãos de um Deus nunca existente, talvez nos abraçássemos, e um entre nós, que jamais poderia ser um sacerdote, tomando a palavra, talvez assim falasse: “Agora que não resta qualquer dúvida de que estamos sós, que não há nenhum deus, nenhum amparo celeste, façamos o melhor de nossa existência!”. Eis o que seria a nossa verdadeira redenção.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

REFLEXÕES DO SÉCULO XXI

DEUS NÃO ESTÁ MORTO, DEUS NÃO EXISTE!



Há milhares de anos, o homem teceu para si a ideia de “Deus”. Não apenas o seu criador, do mundo e de todas as coisas, mas um ser todo-bondade, cujo bem é seu único atributo, embora, para tanto, também seja onipotente, onisciente e onipresente, qualidades sem as quais ele não poderia ser o detentor de todo o bem. Dizem que essa ideia surgiu por pura necessidade – era preciso atribuir uma causa para todas as coisas; uma força, uma entidade, um ser, que também, e necessariamente, fosse causa sui, para que não houvesse uma busca por causas das causas ad infinitum.

A Religião se apropriou desse “Deus”, e tudo seria menos complexo se ela fosse uma só – “a religião da humanidade com um único Deus”. Mas não! Ela se diversificou em muitas e, ao mesmo tempo, diversificou a ideia de “Deus”. De tal modo que “Ele” não parece o mesmo em cada uma delas. Durante muito tempo, em algumas das religiões mais antigas de que se tem conhecimento, “Ele” nem mesmo era “um” – por lá se adoravam “deuses”, cada qual útil a certas necessidades humanas. Então, adorava-se ao “deus” que lhe conviesse – o que, efetivamente, gerou mais dissidências e divergências. Em outras, nem mesmo era “Ele” – era “Ela”, um “deus feminino”, ou seja, uma “deusa”.

O hinduísmo, uma das grandes religiões do mundo em quantidade de seguidores, tem um panteão repleto de deuses e deusas que, ao que dizem, convergem para um único ser supremo, mas são variados os nomes que dão a "Ele", segundo a variedade de seitas que existem no Oriente. E esse ser supremo tanto pode ter uma aparência antropomórfica, como é o caso de Krishna, quanto a de um animal, como Vishnu, que, às vezes, é retratado como um peixe. Dizem que a religião budista é uma “religião sem Deus ou deuses”. Buda, ou melhor, os budas, como Siddharta Gautama, são seres elevados – homens que chegaram à excelência da qualidade humana, e decidiram zelar por nossa espécie, muitos deles renunciando ao Nirvana, que corresponderia no cristianismo a “chegar ao céu”. Mas, no caso budista, não fica muito bem explicado que “céu nirvânico” seria esse, quem o teria criado e qual a necessidade dele estar “lá”. Os hebreus, cuja religião é o judaísmo, dão ao seu “Deus” o nome de “Jeová” – o deus guerreiro. Um deus que exige do seu povo  adoração, obediência e uma vida irrepreensível. Quando tais requisitos não são observados, é muito comum que Deus-Jeová produza muitas calamidades, causando mesmo até a morte de milhares ou milhões (vide o Velho Testamento) – o que, certamente, já nos dá o direito de considerar que não há aí qualquer possibilidade de Jeová ser “todo-bondade”.

A Bíblia é um livro complexo que tenta “amarrar” numa só verdade ou compreensão deuses bastante diferentes, a saber: o guerreiro Jeová dos judeus e o Pai no Céu, anunciado por Jesus Cristo. Isto é, tenta nos fazer crer que o Jeová, que se ira com muita facilidade (até porque os homens são imperfeitos e cometem erros a todo momento), é o mesmo que “amou o mundo de tal maneira que enviou seu próprio filho, para sacrificar-se pelos homens pecadores”. O que aconteceu ao velho Jeová? Teria o seu coração amolecido com o passar dos anos? Por que não destruir todos os pecadores, como fizera outrora aos de Sodoma e Gomorra? O que pessoas como Maria Madalena, uma prostituta, que pelas leis judaicas deveria ser apedrejada em praça pública, e Pedro, um covarde, que negou por três vezes ser seguidor do Cristo, teriam de tão especial aos olhos de “Deus-Jeová” que merecessem, assim como outros milhões de semelhantes a eles, o sacrifício do “Cordeiro de Deus”? Difícil saber, não é mesmo? Então, fica a indagação, para , quem sabe, uma resposta plausível a posteriori, quando a humanidade poderá está mais madura para questões tão complexas (caso os homens não concluam seu intento de destruírem-se uns aos outros em nome de Deus, como têm feito até aqui, é claro!)

O islamismo chama seu “Deus” de “Alá” e, assim como o cristianismo tem seu livro sagrado e seu profeta maior, ele também tem os seus: o Alcorão e Maomé, respectivamente. Os muçulmanos são muitos devotados e praticam um culto bastante rigoroso, com rituais que não podem deixar de ser observados, sob pena de o faltoso ser considerado um infiel e sofrer duríssimas penalidades por parte de sua comunidade. O islamismo também exige respeito até dos que não professam sua fé. O que está bastante claro na atualidade, com todos esses eventos, que a imprensa insiste em veicular com termos disfarçados. Durante anos, na Idade Média, a Igreja Católica promoveu um grande conflito entre muçulmanos e cristãos, nos episódios que foram chamados de “As Cruzadas". Por Trás de toda fé e de toda propaganda articulada pelo Vaticano, o objetivo era mesmo retomar terras consideradas da cristandade das mãos dos mouros (muçulmanos) – locais considerados sagrados, porque lá estivera ou vivera o Cristo. O certo é que todas essas dissidências ou divergências de pensamento dificultaram, e ainda dificultam, uma compreensão cabal da existência de Deus e do que ou quem seria “Ele”.

Na segunda metade do século 19, o filósofo Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) declarou, através do protagonista do seu livro “Assim falava Zaratustra”, “Deus morreu”, e já em "A Gaia Ciência" (Aforismo 125), o filósofo se delonga em expor questionamentos que muitos se fariam decorrentes da tomada de consciência da "morte de Deus". O filósofo teve uma vida repleta de males e, nos últimos anos de existência, sua saúde deteriorou bastante, culminando em loucura, o que fez com que seus adversários e desafetos, os cristão mais precisamente, fizessem também uma declaração contra ele, parafraseando-o ironicamente: “Deus disse ‘Nietzsche está morto!'”. Nesse pormenor, os cristãos podem bater no peito, vitoriosos: realmente Nietzsche está morto e a ideia Deus ainda sobrevive até os dias de hoje.

No entanto, há sobejas evidências de que nem cristãos, nem judeus, nem muçulmanos, nem ateus, nem seguidores do filósofo Nietzsche, estão com a razão. Não há nenhuma prova (ou mesmo vestígios) de que um Deus-bondade, um Deus-guerreiro ou um Deus-justiça exista (ou "seja"). O que a Razão pode nos levar a perceber é que a ideia Deus tornou-se um disparate diante de tudo o que testemunhamos, não só ao longo da História, como também no nosso dia-a-dia. O que há em nossa existência é o total desamparo por parte de qualquer ser ou força suprema, exceto os atributos que nos foram dados pela mãe Natureza. A sentença de Nietzsche foi mal interpretada por muitos (sobretudo pelos obtusos cristãos). O filósofo não pretendia informar sobre a morte de uma “divindade suprema”; ele vaticinava, esperançoso, a morte da ideia “Deus”. Uma ideia que, embora para os religiosos seja salutar e benfazeja, para o homem não-religioso, que faz uso da razão, que observa o mundo e o quer modificar, é uma ideia totalmente perniciosa e falaciosa. Por quê? Muito simples! Esse “Deus” (fosse Ele o que) não faz (nem faria) desse mundo, ou das pessoas desse mundo, algo melhor, sendo Ele próprio motivo de intolerância, desavenças pequenas e guerras descomunais. Somente um grandíssimo tolo, na verdade, um insano, conseguiria ver em qualquer coisa que se pudesse atribuir a “Ele” algo de “plena bondade ou justiça”.


Este mundo pode parecer “cosmos” (ordenado) em suas leis gerais, ou seja, que não levam em consideração os atos humanos (o fato de serem bons ou maus, ou agirem bem ou mal); leis que equilibram este Universo, de maneira que sintamos certa segurança na regularidade quase invariável das coisas. Basta observarmos que todos estamos sujeitos aos mesmos horrores, às mesmas vicissitudes, às mesmas calamidades etc, etc. Ninguém está a salvo de uma doença terrível, de uma morte violenta e injusta, ou de qualquer outro fatalidade medonha. Somos todos vítimas do tempo, da sorte, dos que não nos querem bem e dos que simplesmente, sem qualquer razão, podem nos fazer o mal. Nenhum “Deus” apresentado até agora pelas religiões se demonstrou nosso “protetor”, “pai” ou “amigo”, no sentido em que esses termos têm sua melhor definição. Estamos totalmente desprotegidos e sós, a despeito de todas as orações, todas as adorações, todos os nossos atos de fé, todos os nossos pedidos de clemência. A verdade é que estamos como naus à deriva, e o nosso medo nos faz clamar pelo invisível, ou pior, pelo inexistente.


Os milhares de anos de adoração em vão, de cultos e rituais pueris e insanos, não foram ainda suficientes para nos despertar dessa “loucura” – queremos “Deus”; queremos qualquer “Deus”; queremos qualquer coisa que nos dê alívio, paz, segurança. Por isso mantemos a chama acesa no altar da esperança – seremos salvos pelo sangue de um justo, pela espada de um guerreiro ou pelo favor da morte, a única até agora capaz de tirar de sobre nossos ombros o peso da existência e da condição falaciosa de “condenados à liberdade”. “Liberdade” já deveríamos saber há muito o que é: uma gaiola imensa, da qual não conseguimos ver as grades, senão quando esbarramos nelas. E então dizemos: “Melhor assim! Lá fora poderia ser pior para mim!”. Esse pensamento não é raciocínio, é medo. Não temos medo de Deus nem do que Ele pode nos dá ou tirar (afinal Ele é bom, não é?) – temos medo de nós mesmos, pois assim é que nos ensinaram, porque de outra forma jamais adoraríamos um “Deus”; jamais inventaríamos um “Deus”; jamais sequer cogitaríamos tal possibilidade. Portanto, que seja o medo o guardião de todo e qualquer “Deus”. Pelo medo (se preferirem termos bíblicos, “pelo temor) Deus está justificado... Mas nem por isso “Ele” existe!